Com pompa e circunstância foi lançado o manifesto “A cultura apoia António
Costa”. Um manifesto em formato de petição subscrita por “centenas de
intelectuais” segundo a notícia do jornal Público, um órgão de comunicação
social da SONAE que nos últimos anos caracteriza-se por uma linha editorial em
relação à Cultura que tem sustentado e promovido uma ideia da cultura enformada
ao campo da economia, acompanhando e apoiando as políticas culturais de direita
apostadas em alargar a hegemonia do grande capital na esfera da transmissão e
disseminação de valores e, simultaneamente, aprofundar o potencial lucrativo do
negócio cultural.
Não deixando de investir nas potencialidades da cultura (em particular das
artes) ao serviço de tentativas de harmonização das oposições de classe e das
atrozes desigualdades inerentes ao capitalismo, as políticas de direita visam no
essencial comprimir a autonomia relativa do trabalho cultural e artístico;
levantar o mais alto possível o muro entre fruidores e criadores (os primeiros
remetidos para o papel de espectadores passivos amarrados a uma interactividade
altamente manipulada; os segundos, remetidos a produtores/gestores
especializados de mercadorias culturais altamente policiadas na sua
forma-conteúdo); e, claro está, aproveitar na máxima plenitude os lucros do
filão da cultura e da “criatividade”, um lucro que só pode vir da exploração da
força de trabalho dos trabalhadores da cultura, das artes, da ciência e do
património, força essa que a classe dominante pretende ver encaminhada na sua
totalidade para o cumprimento dos seus objectivos hegemónicos.
Para a concretização destes objectivos é de grande importância a redução a um
nível quase zero do investimento directo do Estado na Cultura (estamos nos 0,1%
do Orçamento de Estado para a cultura, 0,2% no anterior governo PS) e
consequente desresponsabilização deste na definição de políticas culturais
democráticas (à revelia da nossa Constituição) usando o argumento “o Estado não
tem dinheiro”.
Desta forma, com os seus parcos recursos, vai cabendo ao Estado o investimento
na cultura-anestesia das oposições de classe e desigualdades económicas e
sociais geradas pelo capitalismo e, também, a distribuição de uns quantos
dinheiros-privilégios a alguns produtores/gestores de mercadorias culturais
consideradas”meritórias” para consumo de elites “bem pensantes” e economicamente
priviligiadas. Tudo o resto tende a passar para a gestão do grande capital que
vai tratando de fazer da cultura e da “criatividade” um negócio bastante
lucrativo mantendo a pressão sobre o Estado para alargar os benefícios fiscais
concedidos a estes interesses privados “promotores de cultura” dada a “utilidade
pública e sóciocultural” dos seus negócios.
Estamos portanto num caminho de total perversão da democracia também no que à
cultura diz respeito e o grande capital tem encontrado no PS/PSD e CDS a
cumplicidade necessária ao seu prosseguimento.
Nos últimos anos a luta contra este rumo para a cultura tem vindo a assumir uma
expressão crescente, tanto quantitativa como qualitativa. Em grande parte por
força do Manifesto em Defesa da Cultura, um movimento que em pouco mais de dois
anos de existência conseguiu trazer a luta pela cultura para a luta geral do
povo português (e vice-versa), unindo através de núcleos locais e regionais
criados pelo país tanto os trabalhadores da cultura, como amadores e tantos
outros conscientes da importância do papel emancipador e transformador da
cultura. Por força deste movimento conseguiu trazer-se para o campo
reivindicativo o 1 por cento para a Cultura no Orçamento de Estado como meta
mínima para o Estado iniciar um política cultural que cumpra com o estabelecido
na Constituição da República Portuguesa, uma política que assegure o acesso de
todos às ferramentas da criação e fruição culturais. Pela força deste movimento
demonstrou-se a falência dos jogos de poderes, de lutas “pela cultura” pouco
claras nos seus reais interesses, muitas vezes priviligiando as jogadas de
bastidores em vez da luta tenaz, aberta e franca, com exigências que interpretem
o interesse geral do povo português.
Não é de estranhar por isso que, num momento de agudização da luta de classes em
que todos os dias a consciência dos trabalhadores e das populações se eleva e se
une na luta, o capital invista no renovar da maquilhagem de velhas alternâncias
políticas para as poder apresentar como alternativas frescas e novas. Este
investimento produziu o evento “A cultura apoia António Costa” que aconteceu
(não sabemos se simbolicamente propositado ou não) num mercado da capital e
reuniu perto de duas das noticiadas centenas de intelectuais que segundo o
Jornal Público apoiam António Costa.
No entanto não deixa de causar perplexidade a desonestidade de quem propõe e de
quem assina um documento que totalitária e absurdamente se intitula “a cultura
apoia António Costa” como se, tanto individualmente, tanto no seu todo, os
proponentes e signatários tivessem legitimidade para amarrar a cultura no apoio
a uma qualquer personalidade, e, ainda mais, no apoio a alguém comprometido
pessoalmente com as políticas que têm afundado o país e que pretende ser líder
de um partido também ele comprometido da cabeça aos pés com os ataques à
democracia de Abril, um partido que chamou e assinou o memorando da Troika
juntamente com o PSD e CDS, um partido que sempre recusou pôr em prática uma
verdadeira política cultural, com um orçamento digno e respeitando a
Constituição. Se os proponentes e signatários de “a cultura apoia António Costa”
se revêem neste título-afirmação é porque consideram a cultura um clube seu,
numa atitude vergonhosamente elitista.
Quanto ao texto da petição propriamente dito cabe apenas dizer que contém zero
propostas para uma política cultural alternativa e que só pode ser levado a
sério por gente que se decida na base da fezada, neste caso fezada numa figura
que os proponentes juram ter características de salvador: um homem íntegro,
inteligente, autêntico, dinâmico, convicto e responsável. A análise da realidade
concreta do percurso pessoal de António Costa, e principalmente da realidade
concreta do papel do PS enquanto responsável cimeiro pelo actual estado das
nossas vidas, da cultura e do país, indicam que uma alternativa de facto dali
não sairá. Mas, costuma dizer-se, o cheiro ainda que leve a poder atrai e
entontece.
E cair de costas parte a espinha a quem tem uma.
Jorge Feliciano,
8 de Julho de 2014