9 de julho de 2014

Cair de costas parte a espinha a quem tem uma.

Com pompa e circunstância foi lançado o manifesto “A cultura apoia António Costa”. Um manifesto em formato de petição subscrita por “centenas de intelectuais” segundo a notícia do jornal Público, um órgão de comunicação social da SONAE que nos últimos anos caracteriza-se por uma linha editorial em relação à Cultura que tem sustentado e promovido uma ideia da cultura enformada ao campo da economia, acompanhando e apoiando as políticas culturais de direita apostadas em alargar a hegemonia do grande capital na esfera da transmissão e disseminação de valores e, simultaneamente, aprofundar o potencial lucrativo do negócio cultural.

Não deixando de investir nas potencialidades da cultura (em particular das artes) ao serviço de tentativas de harmonização das oposições de classe e das atrozes desigualdades inerentes ao capitalismo, as políticas de direita visam no essencial comprimir a autonomia relativa do trabalho cultural e artístico; levantar o mais alto possível o muro entre fruidores e criadores (os primeiros remetidos para o papel de espectadores passivos amarrados a uma interactividade altamente manipulada; os segundos, remetidos a produtores/gestores especializados de mercadorias culturais altamente policiadas na sua forma-conteúdo); e, claro está, aproveitar na máxima plenitude os lucros do filão da cultura e da “criatividade”, um lucro que só pode vir da exploração da força de trabalho dos trabalhadores da cultura, das artes, da ciência e do património, força essa que a classe dominante pretende ver encaminhada na sua totalidade para o cumprimento dos seus objectivos hegemónicos.

Para a concretização destes objectivos é de grande importância a redução a um nível quase zero do investimento directo do Estado na Cultura (estamos nos 0,1% do Orçamento de Estado para a cultura, 0,2% no anterior governo PS) e consequente desresponsabilização deste na definição de políticas culturais democráticas (à revelia da nossa Constituição) usando o argumento “o Estado não tem dinheiro”.

Desta forma, com os seus parcos recursos, vai cabendo ao Estado o investimento na cultura-anestesia das oposições de classe e desigualdades económicas e sociais geradas pelo capitalismo e, também, a distribuição de uns quantos dinheiros-privilégios a alguns produtores/gestores de mercadorias culturais consideradas”meritórias” para consumo de elites “bem pensantes” e economicamente priviligiadas. Tudo o resto tende a passar para a gestão do grande capital que vai tratando de fazer da cultura e da “criatividade” um negócio bastante lucrativo mantendo a pressão sobre o Estado para alargar os benefícios fiscais concedidos a estes interesses privados “promotores de cultura” dada a “utilidade pública e sóciocultural” dos seus negócios.

Estamos portanto num caminho de total perversão da democracia também no que à cultura diz respeito e o grande capital tem encontrado no PS/PSD e CDS a cumplicidade necessária ao seu prosseguimento.

Nos últimos anos a luta contra este rumo para a cultura tem vindo a assumir uma expressão crescente, tanto quantitativa como qualitativa. Em grande parte por força do Manifesto em Defesa da Cultura, um movimento que em pouco mais de dois anos de existência conseguiu trazer a luta pela cultura para a luta geral do povo português (e vice-versa), unindo através de núcleos locais e regionais criados pelo país tanto os trabalhadores da cultura, como amadores e tantos outros conscientes da importância do papel emancipador e transformador da cultura. Por força deste movimento conseguiu trazer-se para o campo reivindicativo o 1 por cento para a Cultura no Orçamento de Estado como meta mínima para o Estado iniciar um política cultural que cumpra com o estabelecido na Constituição da República Portuguesa, uma política que assegure o acesso de todos às ferramentas da criação e fruição culturais. Pela força deste movimento demonstrou-se a falência dos jogos de poderes, de lutas “pela cultura” pouco claras nos seus reais interesses, muitas vezes priviligiando as jogadas de bastidores em vez da luta tenaz, aberta e franca, com exigências que interpretem o interesse geral do povo português.

Não é de estranhar por isso que, num momento de agudização da luta de classes em que todos os dias a consciência dos trabalhadores e das populações se eleva e se une na luta, o capital invista no renovar da maquilhagem de velhas alternâncias políticas para as poder apresentar como alternativas frescas e novas. Este investimento produziu o evento “A cultura apoia António Costa” que aconteceu (não sabemos se simbolicamente propositado ou não) num mercado da capital e reuniu perto de duas das noticiadas centenas de intelectuais que segundo o Jornal Público apoiam António Costa.

No entanto não deixa de causar perplexidade a desonestidade de quem propõe e de quem assina um documento que totalitária e absurdamente se intitula “a cultura apoia António Costa” como se, tanto individualmente,  tanto no seu todo, os proponentes e signatários tivessem legitimidade para amarrar a cultura no apoio a uma qualquer personalidade, e, ainda mais, no apoio a alguém comprometido pessoalmente com as políticas que têm afundado o país e que pretende ser líder de um partido também ele comprometido da cabeça aos pés com os ataques à democracia de Abril, um partido que chamou e assinou o memorando da Troika juntamente com o PSD e CDS, um partido que sempre recusou pôr em prática uma verdadeira política cultural, com um orçamento digno e respeitando a Constituição. Se os proponentes e signatários de “a cultura apoia António Costa” se revêem neste título-afirmação é porque consideram a cultura um clube seu, numa atitude vergonhosamente elitista.

Quanto ao texto da petição propriamente dito cabe apenas dizer que contém zero propostas para uma política cultural alternativa e que só pode ser levado a sério por gente que se decida na base da fezada, neste caso fezada numa figura que os proponentes juram ter características de salvador: um homem íntegro, inteligente, autêntico, dinâmico, convicto e responsável. A análise da realidade concreta do percurso pessoal de António Costa, e principalmente da realidade concreta do papel do PS enquanto responsável cimeiro pelo actual estado das nossas vidas, da cultura e do país, indicam que uma alternativa de facto dali não sairá. Mas, costuma dizer-se, o cheiro ainda que leve a poder atrai e entontece.

E cair de costas parte a espinha a quem tem uma.

Jorge Feliciano,
8 de Julho de 2014

2 de dezembro de 2013

A casa em chamas (Parábola do Buda)

Gautama, o Buda, ensinava
a doutrina da roda dos desejos, à qual estamos atrelados, e recomendava
a renúncia a qualquer apetite para assim, sem paixões,
mergulharmos no Nada a que ele chamava Nirvana.
Um dia os seus discípulos perguntaram:
- Como é esse Nada, mestre? Todos queremos
libertar-nos das nossas ânsias, seguindo o que recomendas, mas diz-nos
se esse Nada em que entraríamos é comparável
à união com o todo criado quando ao meio-dia
flutuamos na água sem sentir o peso
do corpo, indolentes, quase sem pensamentos. Ou quando
no leito, quase não conscientes, puxamos do lençol
segundos antes de nos afundarmos no sonho; diz-nos
se esse Nada de que falas é um Nada radiante e bom ou se é
um simples Nada; frio, vazio e sem sentido.

Guardou silêncio o Buda por um largo tempo; depois,
com indiferença, disse:
- Nenhuma resposta há para a vossa pergunta.
Mas naquela mesma noite, quando estes se foram, aos que
até aquele momento ficaram sem abrir a boca, referiu o Buda,
sentado ainda debaixo da árvore do pão, a seguinte parábola:
- Vi não faz muito tempo uma casa que ardia. As chamas
devoravam o telhado. Ao aproximar-me percebi
que no seu interior estava gente. Fui
até à porta e gritei-lhes que o fogo já chegava ao telhado e que deviam
portanto sair imediatamente. Mas ali ninguém
parecia ter pressa. Um perguntou-me,
apesar do fogo lhe chamuscar as duas sobrancelhas,
que tal estava o tempo cá fora, se chovia,
se fazia vento, se existia outra casa
e outras coisas deste estilo. Sem responder,
saí de novo. Estes, pensei, mesmo carbonizados
continuarão a fazer perguntas. Na verdade, amigos,
a quem o chão que pisa, a planta dos pés não queime tanto
que sinta desejos de mudar para outro,
a esses nada tenho a dizer-lhes. Assim falou Gautama, o Buda.
Mas também nós, que não cultivamos já a arte de tolerar,
que cultivamos melhor a arte de não tolerar, nós,
que com conselhos de índole terrena incitamos o homem
a libertar-se dos seus verdugos humanos,
a quem vendo aproximarem-se as esquadrilhas de bombardeiros do capitalismo
continua perguntando-nos como concebemos isto, como imaginamos aquilo,
e o que será do seu mealheiro e das suas calças de domingo
depois de uma revolução,
a esses, cremos que temos pouco a dizer-lhes.


Bertolt Brecht
Tradução de JF da tradução para castelhano de Joaquín Rábago

12 de agosto de 2013

1940

Meu filho pequeno pergunta-me: Tenho de aprender matemáticas?
Para quê?, quis dizer-lhe. Que dois pedaços de pão são mais que um
em breve te darás conta.
Meu Filho pequeno pergunta-me: Tenho de aprender francês?
Para quê?, quis dizer-lhe. Essa nação afunda-se.
Aponta para a boca e mexe com a mão na barriga,
eles depressa te entenderão.
Meu filho pequeno pergunta-me: Tenho de aprender história?
Para quê?, quis dizer-lhe. Aprende a esconder a cabeça na terra
e talvez te salves.

Sim, aprende matemáticas, digo-lhe,
Aprende francês, aprende história!


Bertolt Brecht, Poemas e canções
Tradução de J.F. a partir da tradução para castelhano de Joaquín Rábago

28 de março de 2013

Paraíso depois de morto?! Encham vocês a barriga com ele! *


Joane O Parvo é um personagem que nos causa grande intriga. Não tanto o personagem, mas a forma como Gil Vicente o contextualiza no Auto da Barca do Inferno.

Custa acreditar que essa figura surja nesta peça apenas como efeito cómico, um truque de autor para fazer rir. Um personagem efeito que alguns peritos chegam a dizer não representar qualquer classe ou camada social.

8 de abril de 2012

Dramaturgia, visão política do mundo.*

É famosa a frase em que Marx afirmava “os filósofos têm interpretado o mundo de diferentes maneiras. Mas o que importa hoje é transformá-lo”. Esta frase, contendo todo um programa teve repercussões em todas as áreas da vida.

22 de fevereiro de 2012

Forma e substância

O senhor K. contemplava um dia uma pintura que representava, caprichosamente, certos objectos.
- A alguns pintores – disse – acontece-lhes o mesmo que a muitos filósofos quando contemplam o mundo. Tanto se preocupam com a forma que se esquecem da substância.

19 de fevereiro de 2012

OS PRIVADOS QUE COMPREM A CULTURA! (o belo negócio do mecenato)*

No espaço de dois anos, duas reportagens de algum fôlego sobre cultura e economia (duas palavras cada vez mais vistas juntas, coladinhas uma à outra) publicadas no jornal Público espelham bem o processo de mercantilização em curso da cultura. Ambas as reportagens são assinadas por Alexandra Prado Coelho.

15 de fevereiro de 2012

Brincando aos Homens da Luta. Influenciam os personagens os seus autores?

Entre nós comunistas, a ideia de que a consciência de classe se ganha antes do mais na Luta, não é só uma ideia, é ela própria consciência e prática.

13 de fevereiro de 2012

Apartidarismo, indiferença e neutralidade na luta. Uma reflexão auxiliada por Lénine

Na actual situação de agudização da luta de classes surgem no seio da luta de massas as mais variadas formas de organização não partidária que, somados na forma de auto-proclamados movimentos apartidários, têm ganho uma expressão de razoável dimensão, promovendo

30 de dezembro de 2011

Canção da Roda Hidráulica

1
Os poemas épicos dão notícia
dos grandes deste mundo:
sobem como astros,
como astros caem.
O efeito é consolador e é bom sabê-lo.
Mas para nós, que temos de alimentá-los,
sempre foi, desgraçadamente, mais ou menos igual.

9 de outubro de 2011

Luta de Classes e Transformação Sociocultural*

Muito bom dia a todos.

Vou tentar nesta intervenção lançar algumas questões e linhas de reflexão a ver se conseguimos fazer desta sessão um debate vivo e participado por todos.

6 de outubro de 2011

Oh Gente da Minha Geração de Explorados!*

5 de Maio de 1994. Dezenas de milhar de estudantes do Ensino Secundário fizeram Greve às aulas e vieram para as ruas contra a Reforma Educativa imposta pelo Governo PSD / Cavaco Silva era Manuela Ferreira Leite Ministra da Educação.

10 mil fizeram uma marcha desde o Terreiro do Paço

5 de outubro de 2011

O TEMPO DOMINADO*

Meditação Descontinua sobre o Envelhecimento, é este o título do novo livro de Miguel Urbano Rodrigues. Coube ao Teatro Fórum de Moura o prazer de organizar a primeira sessão de apresentação do livro aqui no Alentejo, e logo em Moura, o concelho onde o Miguel Urbano nasceu e passou parte importante da sua vida.