14 de novembro de 2017

Amor em Amado

"Também outra mulher suspirava de amor nesses dias agitados de São Paulo à espera da visita do ditador. Era a operária Mariana e também para ela a palavra amor tem um significado. Diverso daquele de Marieta, diferente do de Manuela. O amor para ela não quer dizer nem egoísmo, nem ávido desejo imperativo. Seu amor contém admiração e amizade, ela pensa em João como esposo e amante mas, antes de tudo, como companheiro, seu companheiro de cada dia. Seu amor é infinitamente mais complexo que o de Manuela, infinitamente mais profundo que o de Marieta. Sua grandeza está muito além dos limites do leito sonhado por Marieta, do casamento pelo qual anseia Manuela, seu amor abarca as fronteiras de todos os sentimentos, é a vida em toda a sua plenitude, e para ela significa ardente alegria, segura confiança, seu amor a ilumina e dá-lhe forças. Não lhe traz esse amor, nem por um instante sequer, nenhum sofrimento, não lhe causa nenhuma dor, não a faz ter medo, nem chorar, nem desesperar-se, não a faz menor como a Marieta, nem envergonhada como a Manuela. Seu amor lhe dá novas forças para suas árduas tarefas, seu amor a faz melhor a cada manhã, povoa-lhe de sonhos belos as noites fatigadas, as poucas horas de dormir."

Passagem de "Os Ásperos Tempos",  volume I da trilogia "Subterrâneos da Liberdade" de Jorge Amado.

13 de novembro de 2017

500 anos depois

Segundo Sarah Adamopoulos, num texto seu escrito para o livro "A Cidade do Teatro", apenas quase 500 anos após a sua estreia em Almada (em 1509) o "Auto da Índia" de Gil Vicente voltaria ser apresentado nesta cidade. Mais precisamente a 25 de Janeiro do ano 2000 na Mostra de Teatro de Almada. O feito coube ao Teatro do Sopro, grupo de Graça Nazaré e Jean-Pierre Fouque. Aqui ficam duas imagens dessa segunda vez do "Auto da Índia" em Almada. 



10 de novembro de 2017

A avozinha da Trafaria



"La Nonna - A Avozinha da Trafaria", do argentino Roberto Cossa, foi apresentada pelo GITT - Grupo de Intervenção Teatral da Trafaria na Mostra de Teatro de Almada de 2001. Nesta peça a sórdida La Nonna é uma metafórica avozinha: voraz e insaciável tudo come à conta da família cujos elementos vão morrendo. No fim, fica a velha sozinha continuando a comer a comer a comer... Também pelo cenário, grandes telões listados de cinzentos tons, colocava-se a pergunta se seria La Nonna uma personagem-símbolo dos brutais silos da Trafaria? Na primeira imagem vemos La Nonna já na cena final, julgo, depois de toda a restante família ter desaparecido. Na segunda imagem vemos Vítor Azevedo, histórico actor e encenador do GITT responsável também por esta encenação.
 

7 de novembro de 2017

A Boda da Incrível


Aqui duas imagens de "A Boda dos Pequenos Burgueses", de Bertolt Brecht, levada à cena pelo Grupo Cénico da Incrível Almadense na Mostra de Teatro de Almada de 2000. Nos anos que se seguiram à sua revitalização em 1998, o Grupo Cénico da Incrível Almadense dirigido por Malaquias Lemos e contando com um largo grupo de notáveis actores, demonstrava grande vitalidade, uma clara demonstração da potencialidade social e artística do teatro amador, neste caso vindo de uma das nossas centenárias colectividades. Na primeira imagem vemos a onda de choque suscitada pela eloquente dança do Amigo do Noivo (o poeta João Vasco Henriques) com a Noiva (Geninha). Gosto particularmente da cara do Noivo (André Canhão, um actor fabuloso a que voltaremos com fotografias de "A Birra do Morto" também pelo Cénico da Incrível). Na segunda imagem novamente o Amigo do Noivo cantando picantes versos.   



5 de novembro de 2017

H-ISTO, a dança na Mostra


"H-ISTO", peça da Cláudia Dias, produzida pelo Ninho de Víboras, estreou na Mostra de Teatro de Almada de 2001 na então recém-inaugurada Casa Amarela, Centro Cultural e Juvenil de Santo Amaro no Laranjeiro, e circulava por vários dos seus espaços. A programação de dança contemporânea numa Mostra de Teatro provocou discussões acesas nas reuniões preparatórias. Havia quem defendesse que este tipo de trabalhos seriam híbridos e que por isso não deveriam ter lugar na Mostra de Teatro. Felizmente venceu a ideia de que a Mostra deveria ser, também, um lugar aberto a contaminações. Quanto a mim o percurso artístico da Cláudia Dias está para lá de catalogações. É acima um caso sério de rigor, vitalidade e de enorme consequência metodológica, estética e política. Podem comprová-lo esta quarta-feira, 8 de Novembro, no Teatro Municipal Joaquim Benite, onde a será apresentada a sua última criação, "Terça-Feira, tudo o que é sólido dissolve-se no ar". 


4 de novembro de 2017

Cristo!


"Cristo", a última criação de A Lente - Teatro de Aumentar (em 2000), o meu primeiro grupo. Na imagem Ângela Ribeiro, Maria João Costa e Margarida Botelho. Falta o Karas :) A encenação foi do Pedro Raposo, a cenografia da Catarina Pé-Curto, texto de Paulo Mendes. Sendo uma fotografia da última peça d' A Lente, facilmente poderia passar, pelo ambiente, por  uma fotografia de "O Marinheiro" de Fernando Pessoa, a peça inaugural do grupo. Isto se não faltasse nesta imagem o João Lizardo e os seus longos cabelos.

3 de novembro de 2017

Cómica e marítima

Duas imagens da "História Cómico-Marítima" apanhadas no decorrer da Mostra de Teatro de Almada de 2001 no Teatro Estúdio (Rua Serpa Pinto) se não me falha a memória.
Esta apresentação terá sido no seu interior após a estreia ter sido no exterior, no pátio adjacente à sala.


Na primeira imagem três dos cinco fundadores do Teatro Extremo: os actores Fernando Jorge Lopes, Paulo Duarte e Rui Cerveira. Faltam na imagem os outros dois: a produtora Sofia Oliveira e Mário Timóteo, actor que já não se encontra entre nós.

Gosto particularmente da tensão do punho de Fernando Jorge Lopes que pouco amedronta Rui Cerveira que, já calmo, encontramos depois, na segunda imagem, a controlar a navegação.

A primeira vez que assisti a uma peça do Extremo foi também a sua primeira criação: "Os Infernos da Barca", uma brilhante versão do "Auto da Barca do Inferno".

Lembro-me de ter saído já tarde mais o Pedro Raposo do Festival de Teatro de Almada e fomos até à Lemauto em Cacilhas onde decorria o primeiro Festival X. Chegámos cerca das duas da manhã, lá nos esgueirámos para dentro de uma das salas sem sabermos que peça estava a decorrer. Fomos recebidos pela inesquecível Brízida Vaz feita pelo Rui Cerveira.

2 de novembro de 2017

O tambor da muda

Amanhã começa a 21ª Mostra de Teatro de Almada. Parece-me um óptimo pretexto para reactivar o Teresa Sindicato, parado desde 2013.

Com a ajuda de um digitalizador de negativos meio manhoso (que, ainda assim, consegue recuperar alguma da granulada personalidade da clássica película preto e branco "Kodak Tmax" 3200 asa ) irei publicar, nas próximas duas semanas, algumas das imagens que fiz para as Mostras de 2000 e 2001.

As duas primeiras são da peça "Mãe coragem e seus filhos" de Bertolt Brecht, numa encenação de Joaquim Benite para a Companhia de Teatro de Almada.

Na primeira imagem a actriz Maria Frade no papel de Kattrin, a filha muda. Durante a noite as tropas imperiais preparam-se para atacar à traição a cidade de Halle. Nos arrabaldes os camponeses apercebem-se disso mesmo, do triste destino daqueles que estão na cidade incluindo a Mãe Coragem. Perante a atrocidade iminente os camponeses limitam-se a rezar, esperando desta forma fazer com que alguma superior força acorde os habitantes de Halle.

Kattrin, a filha muda, rompe com o misticismo da situação, pára de rezar e sobe ao telhado com um tambor no qual bate estrondosamente com todas as suas forças.
É abatida a tiro pelas tropas invasoras mas graças ao seu gesto os habitantes da cidade acordam e defendem-se.

Na segunda imagem vemos a Mãe Coragem (de Teresa Gafeira), já de manhã, com a sua filha muda ao colo, cantando-lhe uma música de embalar, não querendo acreditar que ela está morta, que apenas está dormindo.

"Descobri Mãe Coragem nas reportagens televisivas da Bósnia, da Croácia, do Kosovo, com as suas filas de refugiados famintos, de soldados atípicos, com os seus relatos de perseguições, mas também com os seus tráficos de armas, o mercado negro e o contrabando das pequenas quadrilhas", disse à Lusa Joaquim Benite nas vésperas da estreia no final do ano de 2000.


2 de dezembro de 2013

A casa em chamas (Parábola do Buda)

Gautama, o Buda, ensinava
a doutrina da roda dos desejos, à qual estamos atrelados, e recomendava
a renúncia a qualquer apetite para assim, sem paixões,
mergulharmos no Nada a que ele chamava Nirvana.
Um dia os seus discípulos perguntaram:
- Como é esse Nada, mestre? Todos queremos
libertar-nos das nossas ânsias, seguindo o que recomendas, mas diz-nos
se esse Nada em que entraríamos é comparável
à união com o todo criado quando ao meio-dia
flutuamos na água sem sentir o peso
do corpo, indolentes, quase sem pensamentos. Ou quando
no leito, quase não conscientes, puxamos do lençol
segundos antes de nos afundarmos no sonho; diz-nos
se esse Nada de que falas é um Nada radiante e bom ou se é
um simples Nada; frio, vazio e sem sentido.

12 de agosto de 2013

1940

Meu filho pequeno pergunta-me: Tenho de aprender matemáticas?
Para quê?, quis dizer-lhe. Que dois pedaços de pão são mais que um
em breve te darás conta.
Meu Filho pequeno pergunta-me: Tenho de aprender francês?
Para quê?, quis dizer-lhe. Essa nação afunda-se.
Aponta para a boca e mexe com a mão na barriga,
eles depressa te entenderão.
Meu filho pequeno pergunta-me: Tenho de aprender história?
Para quê?, quis dizer-lhe. Aprende a esconder a cabeça na terra
e talvez te salves.

Sim, aprende matemáticas, digo-lhe,
Aprende francês, aprende história!


Bertolt Brecht, Poemas e canções
Tradução de J.F. a partir da tradução para castelhano de Joaquín Rábago

28 de março de 2013

Paraíso depois de morto?! Encham vocês a barriga com ele! *


Joane O Parvo é um personagem que nos causa grande intriga. Não tanto o personagem, mas a forma como Gil Vicente o contextualiza no Auto da Barca do Inferno.

Custa acreditar que essa figura surja nesta peça apenas como efeito cómico, um truque de autor para fazer rir. Um personagem efeito que alguns peritos chegam a dizer não representar qualquer classe ou camada social.

8 de abril de 2012

Dramaturgia, visão política do mundo.*

É famosa a frase em que Marx afirmava “os filósofos têm interpretado o mundo de diferentes maneiras. Mas o que importa hoje é transformá-lo”. Esta frase, contendo todo um programa teve repercussões em todas as áreas da vida.

22 de fevereiro de 2012

Forma e substância

O senhor K. contemplava um dia uma pintura que representava, caprichosamente, certos objectos.
- A alguns pintores – disse – acontece-lhes o mesmo que a muitos filósofos quando contemplam o mundo. Tanto se preocupam com a forma que se esquecem da substância.

19 de fevereiro de 2012

OS PRIVADOS QUE COMPREM A CULTURA! (o belo negócio do mecenato)*

No espaço de dois anos, duas reportagens de algum fôlego sobre cultura e economia (duas palavras cada vez mais vistas juntas, coladinhas uma à outra) publicadas no jornal Público espelham bem o processo de mercantilização em curso da cultura. Ambas as reportagens são assinadas por Alexandra Prado Coelho.

30 de dezembro de 2011

Canção da Roda Hidráulica

1
Os poemas épicos dão notícia
dos grandes deste mundo:
sobem como astros,
como astros caem.
O efeito é consolador e é bom sabê-lo.
Mas para nós, que temos de alimentá-los,
sempre foi, desgraçadamente, mais ou menos igual.